A Fera de Castro Laboreiro
- Arcos Tour

- 18 de dez. de 2025
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Era uma vez…
Reza a lenda que, no séc. XIX, em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, mais precisamente na vila de Castro Laboreiro, uma fera andava a espalhar o terror, atacando pessoas e animais. Tudo começou com o registo dos primeiros ataques em aldeias galegas próximas. No entanto, como é comum nos predadores, estes tendem a cobrir grandes áreas de caça, como é exemplo o lobo, que pode cobrir uma área de até 200 km².

O aparecimento de carcaças de animais e, por vezes, de pessoas começou a verificar-se cada vez mais perto das aldeias. Num único dia, duas pobres crianças desapareceram, tendo sido encontradas mais tarde já sem vida. Perante o aumento alarmante dos eventos, foi decretado o recolher obrigatório durante a noite, e durante o dia ninguém se atrevia a sair de casa sem estar armado e acompanhado.

Consumidos pelo medo e pela imaginação, começaram a circular boatos de natureza sobrenatural em relação à criatura. Sendo Castro Laboreiro uma terra de lobos, inicialmente era-lhes atribuída a culpa. No entanto, não tardou a perceberem que não era o lobo com quem conviviam o responsável por tal desgraça. De lobos passaram a falar em lobisomem, que seria um filho indigno, amaldiçoado pelos próprios pais. Havia ainda quem acreditasse tratar-se de uma alma penada ou até do próprio diabo.

Habituados a realizar grandes batidas aos lobos e, até ao séc. XVIII, batidas aos ursos, os homens decidiram pôr fim ao terror. Munidos de armas de fogo e ferramentas de agricultura, os homens das localidades afetadas organizaram uma grande batida à fera. Reuniram-se junto à capela de Alcobaça, entre Fiães e Castro Laboreiro, e mais de trezentos homens avançaram pela floresta das Ramalheiras.

Contudo, a fera não foi encontrada. No entanto, durante a batida, um jovem pastor foi encontrado gravemente ferido. Questionado sobre o que lhe sucedera, o rapaz afirmou ter visto a criatura, descrevendo-a como enorme e com grandes garras. Só sobrevivera graças às suas vacas, que, em grupo, investiram contra o predador e o fizeram fugir. Nos anos seguintes, a fera continuou a ser avistada nas redondezas, até que, finalmente, desapareceu sem deixar rasto. Nunca se apurou com certeza que espécie de animal estaria na origem dos ataques. No entanto, com base nos relatos dos poucos que afirmaram tê-la visto e sobrevivido, foi levantada a hipótese de se tratar de um grande felino, possivelmente um tigre fugido de um circo itinerante.

Mito ou realidade?
Em Portugal surgiram relatos de ataques mortíferos de bestas ou feras desconhecidas em regiões como Montalegre, Chaves e Melgaço, sendo este último caso conhecido localmente como a “Fera de Castro Laboreiro” ou “Fera de Fiães”. Transmitida sobretudo por via oral e contando com poucos documentos oficiais ou publicações periódicas preservadas até à atualidade que esclareçam os acontecimentos reais, a história desta criatura é hoje classificada como lenda, não tendo nunca sido identificado com certeza o animal ou o responsável pelos ataques.

Entre os séculos XVII e XIX, registaram-se inúmeros casos desse género, sendo a França o país com maior número de ocorrências e vítimas. Com mais de uma centena de ataques documentados, os episódios da Besta de Gévaudan, da Cévennes ou dos chamados “lobos” de Soissons, Sarlat e Périgord tornaram-se dos mais conhecidos até aos dias de hoje. Em algumas localidades, porém, o medo coletivo e o fervor religioso deram origem também a caças às bruxas e a supostos lobisomens, sendo atribuída a responsabilidade por mortes inexplicáveis a vários homens e mulheres, como no caso do alegado lobisomem galego Manuel Blanco Romasanta, em Espanha. Em Inglaterra, fenómenos semelhantes eram associados a lobisomens ou a criaturas fantasmagóricas, como os célebres cães negros conhecidos por Barghest, Black Shuck ou Gytrash.
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