Pitões das Júnias
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- há 7 dias
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Pitões das Júnias é uma aldeia de montanha situada no extremo norte de Portugal, num território onde a altitude, o clima e o isolamento moldaram profundamente a vida humana. Reconhecida como uma das aldeias mais altas do país, Pitões ergue-se entre os 1.100 e os 1.200 metros de altitude, num ambiente severo, agreste e de grande beleza natural. Mais do que um simples lugar habitado, Pitões é o resultado de uma longa adaptação coletiva a um meio exigente, onde a sobrevivência nunca foi individual, mas sempre comunitária.

A aldeia localiza-se no concelho de Montalegre e integra-se plenamente no Parque Nacional da Peneda Gerês, estando muito próxima da fronteira com a Galiza. A sua posição geográfica coloca-a numa zona de transição entre a serra do Gerês e o Planalto da Mourela, um vasto território de lameiros, pastagens de altitude e terras comunais que desempenhou, ao longo de séculos, um papel absolutamente decisivo na economia e na organização social da aldeia. Foi no Planalto da Mourela que se estruturaram as vezeiras, o pastoreio coletivo e o uso comunitário da terra, sem os quais Pitões dificilmente teria resistido ao rigor da montanha.

O clima de Pitões é marcado por invernos longos e frios, frequentemente com neve, verões curtos e amenos e grandes amplitudes térmicas. Estas condições influenciaram a arquitetura em granito, a alimentação, a criação de gado e a própria mentalidade das gentes, habituadas a prever o tempo, a poupar recursos e a agir em conjunto. Foi também este clima que contribuiu para a excelência do presunto e do fumeiro locais, curados naturalmente pelo frio seco da altitude.

O nome Pitões tem origem pré-latina e deriva do étimo "pitt", que significa pontiagudo, aguçado ou elevado. Trata-se de um topónimo topográfico, profundamente ligado à paisagem envolvente, dominada por fragas, penedos, escarpas e elevações abruptas. Documentos medievais registam a designação “Pitonha”, com provável ligação ao Castelo da Piconha que fica relativamente perto, que evoluiu naturalmente para Pitões ao longo dos séculos. Já a designação “das Júnias” está associada ao Mosteiro de Santa Maria das Júnias e é, segundo vários estudos toponímicos, uma latinização tardia, que substituiu formas antigas como "Juynas" ou "Unhas". O mosteiro local, teria sido originalmente dedicado a Nossa Senhora das Unhas, invocação que acabou por ser progressivamente apagada por razões morais e ou eruditas. Para muitos investigadores, o topónimo genuíno é simplesmente "Pitões", sendo “Júnias” uma referência exclusivamente religiosa.

Antes de Pitões das Júnias existir como a conhecemos hoje, o território estava ligado à antiquíssima freguesia de São Vicente do Gerês, situada nas profundezas do vale do rio Beredo. São Vicente do Gerês foi uma das mais antigas povoações da região, com importância administrativa e religiosa, e é frequentemente apontada como a aldeia primitiva que antecedeu a fixação definitiva em Pitões. A tradição e a documentação histórica referem a existência de um antigo castelo e de uma povoação fortificada, que controlava caminhos de montanha e zonas de pasto. Essa aldeia acabou por desaparecer, tal como o castelo, mas deixou marcas profundas na memória histórica local.

Ao longo dos séculos, Pitões organizou-se como uma verdadeira república comunitária, baseada em normas próprias, decisões coletivas e bens comuns. O moinho, o forno do pão e a corte do boi eram elementos estruturantes dessa organização. A corte do boi do povo, em particular, simbolizava a solidariedade comunitária. O boi (animal) pertencia a todos e era responsavel pela procriação da vezeira. Hoje, a corte do boi encontra-se reconstruída e integrada como polo museológico, testemunho vivo de um modelo social raro em Portugal.

A relação de Pitões com a natureza foi sempre marcada por equilíbrio e confronto. A geografia escarpada e rochosa tornou o território particularmente favorável à presença da cabra-montês, símbolo da fauna do Gerês, enquanto a convivência com o lobo-ibérico obrigou à criação de estratégias coletivas de defesa do gado, através dos fojos do lobo, ainda visíveis na região.

Pitões foi também terra de resistência histórica. Resistiu à destruição do castelo, às pressões senhoriais dos Menezes, condes da Ponte da Barca, e aos ataques castelhanos durante a Guerra da Restauração. Em 1665, tropas espanholas comandadas por D. Hieronymo de Quiñones atacaram a aldeia, mas não conseguiram incendiá-la. Os pitonenses lutaram, repeliram o inimigo e não sofreram perdas, episódio que permanece vivo na memória coletiva como símbolo de coragem e união.

Entre as tradições mais antigas e identitárias destaca-se o Magusto Celta, celebração ancestral ligada ao fogo, à castanha e ao ciclo agrícola. Em Pitões, o magusto mantém um carácter ritual e comunitário, evocando práticas pré-cristãs e reforçando os laços sociais num momento crucial do ano, quando o inverno se aproxima e a partilha volta a ser essencial.

Hoje, Pitões das Júnias conta com cerca de 150 a 160 habitantes. Apesar do envelhecimento demográfico, subsiste um forte sentimento de pertença, alimentado por regressos, pela valorização do património e pelo turismo de natureza e cultural, que encontrou aqui um território autêntico e ainda pouco descaracterizado. O futuro de Pitões das Júnias passa por permanecer sem se perder. O grande desafio é equilibrar a preservação da identidade comunitária, a proteção do território e a necessidade de fixar população, sem transformar a aldeia num simples cenário. Num mundo cada vez mais uniforme, Pitões continua a ser um lugar onde a montanha ensinou a viver em conjunto, a resistir e a não esquecer.
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